sexta-feira, 24 de maio de 2019

Crítica do filme Kardec



Crítica ao filme Kardec

Por Cleiton Freitas
cleiton.cesom@gmail.com
 Análise de um roteiro
24/05/19




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Uma vida não cabe em 2h.

     Fazer filmes biográficos não é fácil, pois é contar a vida de alguém, dias, meses, anos em poucos minutos, e com o filme do diretor Wagner de Assis, não é diferente, Resumir em 110min a vida de alguém com tantos fatos importantes.
Escolher o que contar é sempre uma tarefa difícil do roteirista e do diretor, eles escolhem que recortes irão ser apresentados da vida do biografado, quais foram os fatos mais marcantes e quais dão uma boa cena, e no filme a narrativa criada envolve os principais pontos que o professor Rivail (Leonardo Medeiros) teve em sua busca de consolidar o Espiritismo.
    
    O filme segue uma linha narrativa linear, passando pelos principais pontos da vida do professor francês e tem seus pontos de virada bem definidos, (ponto de virada: quando a história muda). Toda a história toma um rumo diferente quando o professor vai a uma sessão de mesas girantes na casa da Madame Planemaison, a partir daquele fato sua vida vai mudar, muito cético, mas fisgado pela curiosidade, ele procura descobrir o que seria aquele fenômeno que o envolve emocional e racionalmente em algo que é um mistério na França, como as mesas giram? Seria charlatanismo? A partir deste ponto o público é convidado a adentrar na pesquisa que o professor faz para desvendar o que acontece.
    
    Somos apresentados à curva dramática do personagem (mudanças que um personagem sofre no decorrer de uma história) E, normalmente, em histórias bem contadas os personagens passam sempre por transformações no modo de pensar, de agir, e com professor Rivail, isso é bem feito, de um cientista cético ele vai no decorrer da narrativa se transformando no codificador do Espiritismo, essa mudança em sua vida proporciona a ele muitos aprendizados, dificuldades, horas de desânimo, mas ele tem uma ajuda muito grande de uma personagem coadjuvante (personagens importantes na narrativa que impulsionam e dão força para o personagem principal alcançar seus objetivos) é Gabi, sua esposa, (Sandra Corveloni) esta personagem forte e que dá leveza e poesia na história, ela auxilia o professor nas horas mais difíceis em que ele até pensa em desistir. Uma cena bem trabalhada da interação entre os dois atores é a do jantar silencioso.

    O filme não é só a história de um homem que abandonou o seu nome prestigiado de professor, cientista e reconhecido pela Academia Francesa, para assumir um pseudônimo, mas vários assuntos que vão aparecendo na trama, algumas questões que sugerem muito a reflexão e o debate: a intolerância, o preconceito, a miséria, liberdade de expressão, suicídio, a dualidade entre todo o poder da grande Igreja Católica com seus dogmas e de outro Kardec com poucas pessoas fisicamente ao seu lado, mas toda uma espiritualidade ávida para abalar o velho mundo com as notícias dos “mortos”.

     O filme tem uma fotografia muito bonita (Nonato Estrela), com figurinos que correspondem à época, uma estética de Paris bem produzida, uma cenografia retratada com ambientes fechados, apertados, que clamam com algo para serem revelados, com muitas técnicas de computação e usando a cor e luz como narrativas, por ser ambientado todo a luz de velas isso dá um tom de cor interessante na pele dos personagens e nas cenas, permitindo a fotografia brincar com as sombras e luz, vemos isso em cenas em que os livros lançados por Kardec estão bem iluminados contrastando com os ambientes a meia luz, percebemos também que os representantes da Igreja estão sempre um pouco mais escuros, a luz estaria definindo um antagonismo (antagonista: aquele que rivaliza com o protagonista) isso cria uma metáfora de que os livros trariam luzes à humanidade, tirando o velho mundo das trevas, vemos também estas sombras no filme quando ele mostra muitas pessoas morando nas ruas, uma França que mesmo sendo berço do século das luzes, ainda vivia com uma grande população na miséria. Situação que é bem colocada no roteiro com o professor Rivail falando sobre a solidariedade.

    É um filme para qualquer pessoa assistir, longe de religião, o filme mostra um professor e cientista buscando respostas através de métodos, de experimentação e pesquisas, que tem uma história muito inspiradora em um filme cheio de mensagens e aprendizados. E algo que está nas entrelinhas do filme é que tem muito mais assunto ali que não foi visto, lacunas, palavras não ditas, que só uma pesquisa sobre a vida do professor e de suas obras pode responder. O homem por trás do nome.

Vale a pena assistir!

domingo, 23 de dezembro de 2018

Vitor Hugo encontra Shakespeare


Victor Hugo escreve sobre encontro com espírito de Shakespeare; leia trecho
* uma nota minha: A médium Ivone do Amaral Pereira no Livro: Devassando o Invisível, escreve que :

 “Declarou que, salvo resoluções posteriores, pretende reencarnar no Brasil, país que futuramente muito auxiliará o triunfo moral das criaturas necessitadas de progresso, mas que tal acontecimento só se verificará do ano 2000 em diante, quando descerá à Terra brilhante falange com o compromisso de levantar, moralizar e sublimar as Artes. Não podia precisar a época exata. Só sabia que será depois do ano 2000, e que a dita falange será como que capitaneada por Vitor Hugo, Espírito experiente e orientador, a quem se acha ligado por afinidades espirituais seculares, capaz de executar missões dessa natureza”. 


SOBRE O TEXTO
O texto abaixo integra "O Livro das Mesas", que a editora Três Estrelas publica neste mês. A obra é transcrição dos cadernos nos quais o escritor francês registrou as sessões espíritas que realizou entre 1853 e 1855, em seu exílio no Reino Unido. Ele conta ter recebido espíritos ilustres como Jesus Cristo, Maomé, Rousseau, Dante, Napoleão e Molière.

Sexta-feira, 13 de janeiro de 1854. Presentes: Victor Hugo, Auguste Vacquerie. À mesa: sra. Victor Hugo, Charles Hugo. (Ata C. D.)
– Teu nome?
– Shakespeare (1) 

Victor Hugo: Considero da mais alta importância saber se, antes de responderes a nosso chamado, nos concedeste a grande honra de vir por iniciativa própria. Diz então: foste tu que já vieste?
– Sim.

– Tu sabes que te consideramos um dos quatro ou cinco maiores criadores da humanidade. Podes nos relatar o que aconteceu no túmulo e o encontro que ocorreu em 23 de abril de 1616?

– Beijei Corneille quando ele nasceu.

– Eu não disse 1606, e sim 1616. Recolhe-te e verifica se nesse dia Shakespeare não encontrou outro imenso representante do pensamento humano.

– Não.

– Entretanto, em 23 de abril de 1616, Cervantes morreu, mesmo dia e quase a mesma hora que tu. Porventura não o encontraste? Queres responder?
– Não.

– Dizes que não queres responder ou que não o encontraste?

– Miguel de Cervantes não morreu à mesma hora que eu.

– Mas morreu no mesmo dia. Vós provavelmente vos encontrastes no meio para onde fostes. Dois gênios como vós deviam ter o que se falar. O que dissestes um ao outro?

– Quando morremos, assumimos instantaneamente a idade de todos os mortos, isto é, da eternidade. No céu, não existe quem chegou primeiro e quem chegou por último. Todos têm uma segunda vida e essa segunda vida dura 100 milhões de anos. Perguntar a um morto: há quanto tempo estás no céu?, é perguntar a um raio: há quanto tempo estás no Sol? Uma alma é uma irmã sem primogênita. O infinito não é o primogênito do amor. A eternidade não nasceu antes do gênio. Todos os grandes espíritos são gêmeos. Dante não é o caçula de Ésquilo, Sófocles não é o benjamim de Homero, Shakespeare não é o irmão mais moço, Jó não é o mais velho, Isaías é tão centenário quanto Moisés. O Horeb é tão secular quanto o Sinai. A ideia tem filhos, mas não netos. Se interrogares o raio sobre sua idade, ele te dirá: pergunta ao relâmpago. Se interrogares o relâmpago, ele te dirá: pergunta ao raio. Vi Cervantes uma vez. Ele me cumprimentou e falou: "Poeta, o que pensas de dom Quixote?". E Molière, que passava, disse: "É o mesmo homem que dom Juan". E eu disse: "É o mesmo homem que Hamlet. Dom Quixote duvida, dom Juan duvida, Hamlet duvida. Dom Quixote procura, dom Juan procura, Hamlet procura. Dom Quixote chora, dom Juan ri, Hamlet sorri, os três sofrem. Na caveira que Hamlet segura, há tua lágrima, ó Cervantes, e teu riso, ó Molière. O esqueleto da dúvida se contorce sob a beleza de nossas três obras. Nós fazemos o drama, Deus o consuma. Olhai o céu, é o último ato. A lápide que se abre para nossas almas é o pano que se abre para o desenlace. Aplaude, Cervantes! Aplaude, Molière! Aplaude, Shakespeare! Deus entra em cena".

– Na presença de um gênio como tu, os pensamentos abundam e se atropelam, eis o que me ocorre em primeiro lugar. Quando estavas sobre a Terra, tu criavas, criavas depois de Deus. Agora que deixaste a Terra e habitas a verdadeira vida, a luz, o que constitui teu gênio? Vives, Shakespeare, ora, há ideias indivisíveis. Para Shakespeare, viver é criar, continuas a criar? Continuas a tua obra? Se continuas, se isso é de ti, deve ser de todos os outros gênios. De maneira que, ao lado da criação direta de Deus, haveria o que poderíamos chamar de criação indireta, isto é, a criação de Deus através dos grandes espíritos. Isso abre um horizonte imenso e inédito. Queres responder à minha pergunta? Continuas tua obra? Se continuas, é conforme o mundo dos homens, que tu habitaste, ou conforme o mundo das almas, que habitas agora? Tua obra sofre a mesma transformação que tu? Escreve-a, se a palavra escrever pode ser empregada, em uma língua nova para nós, que os homens não compreenderiam e que é a língua própria do céu? São dramas que fazes? Sobre quais paixões? Sobre qual mundo? Sobre quais ideias? Esses dramas, se fossem traduzidos, seriam acessíveis à inteligência humana? Em suma, qual é o elo que ligaria tua obra no céu à tua obra na Terra?

– A vida humana tem criadores humanos. A vida celestial tem o criador divino. Criar, eis o trabalho, contemplar, eis a recompensa. Na Terra, os grandes espíritos criam para moralizar, mas no céu tudo é moral, tudo é bom, tudo é justo, tudo é belo. O céu seria incompleto se eu criasse alguma coisa, uma obra-prima destituiria Deus. Estou condenado à admiração, eu, o admirado. Estou perdido na multidão dos espectadores, eu, o criador. Deus cultiva um canteiro de semideuses. Orfeu, Tirteu, Homero, Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Moisés, Ezequiel, Isaías, Daniel, Esopo, Dante, Rabelais, Cervantes, Molière, Shakespeare e outros que entrevejo sem conhecê-los, no infinito, estamos sentados pensativos diante da luz do Eterno. Jesus está de joelhos. A luz nos ilumina e ofusca. A vida nos arrebata e transborda, se tu visses todos esses profetas, todos esses magos, todos esses poetas e todos esses gênios, sentados em círculo ao redor de Deus, tu não me perguntarias se eu crio. Não, eu olho, não, eu escuto, não, sou um átomo atento diante da imensidão. Sou um grande homem que abdica perante o infinito. Eu caio arcanjo. Desço pequeno do pedestal e jogo fora minha auréola. Sou um sonho cujo despertar é a morte. Eu tinha a arte, agora tenho o amor. Minhas criações deixaram suas asas no túmulo. O amor é a arte ressuscitada. A arte caminha rumo à porta do céu, apenas o amor entra lá. A felicidade é uma meca eterna cujo peregrino é a arte e cujo anjo é o amor.

– Vieste a pedido de André Chénier. Podes, igualmente, pedir a André Chénier que volte e nos dizer quando ele voltará?

– Sim.

– Quando ele voltará?

– Dentro de dez dias.

– No 23?

– Sim.


Victor Hugo sai.


Sra. Hugo: Tu dizes que vós não criais mais na vida em que estais. Como é possível que, por sua vez, André Chénier só pense em criar, em terminar suas obras?

– A vida me coroou, ao passo que decapitou Chénier. Chénier ainda tem alguma coisa a dizer à vida. Quanto a mim, não falo mais senão com Deus ou em Seu nome. Shakespeare é pai de sua obra. Chénier é órfão da sua.


Encerrado à meia-noite.

(1)

De repente o filho ergueu a voz e interrogou o pai:
– O que pensas desse exílio?
– Que será longo.
– Como espera vivê-lo?
O pai respondeu:
– Contemplarei o oceano.
Houve um silêncio. O pai continuou:
– E tu?
– Eu – disse o filho – traduzirei Shakespeare. (In: Hugo, Victor. William Shakespeare, t. I)
Nessa conversa inicial entre Victor Hugo e seu filho François-Victor, travada no salão de Marine Terrace, em Jersey, em uma manhã de novembro de 1852, transparecem as intenções respectivas de pai e filho naqueles primeiros tempos de exílio. Era grande, portanto, a expectativa de François-Victor pela aparição do dramaturgo inglês, embora, na época, ele ainda não dominasse a língua inglesa.
A ortografia do nome do dramaturgo inglês nas atas e nos dois cadernos é: Shakspeare. Alteramos para a forma vigente.
Shakespeare aparece pela primeira vez na mesa de Marine Terrace na sexta-feira 13 de janeiro de 1854. Victor Hugo está presente. Shakespeare voltará regularmente até o fim de 1854, data em que termina o caderno de 1854. A intervenção de Shakespeare reproduzida em nossa edição, escrita de próprio punho por Victor Hugo, começa em 22 de janeiro de 1854. As atas acham-se transcritas em folhas numeradas de 2 a 11 (Maison de Victor Hugo, Paris). Shakespeare faz parte dos catorze gênios da humanidade listados como tais por Hugo em William Shakespeare: "Homero, Jó, Ésquilo, Isaías, Ezequiel, Lucrécio, Juvenal, Tácito, São João, São Paulo, Dante, Rabelais, Cervantes, Shakespeare". Nessa lista, contudo, se alguns "são grandes, Ésquilo e Shakespeare são imensos" (William Shakespeare, t. II, 1).


Victor Hugo (1802-1885), autor de "Os Miseráveis", foi um dos maiores romancistas da França.
André Telles, 61, tradutor de francês há mais de 20 anos, venceu o Jabuti por traduções de "O Conde de Monte Cristo" e "Os Três Mosqueteiros".
Carla Chaim, 34, é artista plástica. Sua exposição "A Pequena Morte" começa na segunda (9) na Galeria Raquel Arnaud.
tradução André Telles 
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/04/victor-hugo-escreve-sobre-encontro-com-espirito-de-shakespeare-leia-trecho.shtml



Esse livro surpreendente traz pela primeira vez a transcrição de quatro cadernos em que Victor Hugo, sua família e seus amigos descreveram as sessões espíritas das quais participaram na ilha de Jersey, entre 1853 e 1855.
Escritor consagrado e político atuante, o autor de Os miseráveis se exilara na ilha britânica após o golpe de Estado de Luís Napoleão Bonaparte.
Em Jersey, manifestam-se, por meio de diálogos, poemas e até mesmo de uma peça de teatro, mais de uma centena de espíritos - como os de Dante, Shakespeare, Molière, Voltaire, Jesus e Maomé.
As conversas com os espíritos atravessam uma gama de questões sobre a condição humana, o crime e a punição, o sofrimento e a morte, o destino da alma, a vida no além, a importância do amor e do perdão.
Essa edição reúne pela primeira vez a maior parte dos escritos de Jersey, muitos deles inéditos e descobertos recentemente. Trata-se de documento essencial para compreender a obra de Hugo posterior ao exílio e também os momentos iniciais da história do espiritismo.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

CHOPIN, GEORGE SAND e KARDEC


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CHOPIN, GEORGE SAND e KARDEC

Eliseu Mota Júnior – motajunior@uol.com.br
 O compositor Frédéric François Chopin — ou Fryderyk Franciszek Chopin no original polonês —  nasceu no dia 11 de fevereiro de 1810 em Zelazowa Wola, perto de Varsóvia, mas a partir de 1831 fixou-se em Paris para não mais retornar à Polônia, porquanto faleceu na capital francesa no dia 17 de outubro de 1849.
Certamente em função de ter vivido apenas 39 anos, Chopin deixou uma obra até certo ponto singela, porém de inestimável valor artístico e que contribuiu decisivamente para o enriquecimento da história da música pianística. Aristocrático, ele tinha o hábito de executar suas composições para poucas e seletas pessoas, evitando exibições em grandes auditórios.
Por seu turno, George Sand — pseudônimo da escritora Amandine-Aurore-Lucile Dupin —, nasceu em Paris a 1º de julho de 1804 e morreu na própria França, em Nohant, no dia 08 de julho de 1876.
Em 1832 publicou Indiana, seu primeiro romance, através do qual ganhou fama imediata, sem esquecer que o livro foi considerado até mesmo apologista do suicídio, embora o seu objetivo primordial tenha sido a defesa da liberdade feminina, bandeira que aliás sempre defendeu. Depois disso escreveu uma vasta obra literária, que passou dos cem volumes, razão pela qual foi considerada uma escritora prolixa por alguns críticos.
Os biógrafos — É interessante consignar que, durante certa de doze anos — de 1836 a 1848 — Chopin e George Sand mantiveram um misterioso e controvertido relacionamento, que até hoje tem sido objeto de questionamento pelos biógrafos de ambos.
Como exemplo dessa assertiva, a edição do dia 17 de junho de 1998 da revista Veja, na seção artes e espetáculos, trouxe uma crítica literária assinada por João Gabriel de Lima comentando o livro Chopin in Paris (ainda sem tradução para o português), de autoria do escritor e jornalista Tad Szulc, que acaba de ser lançado nos Estados Unidos e aborda a relação entre Chopin e Sand. Vejamos um resumo da referida crítica:
Por causa de Hollywood, o compositor polonês Frédéric Chopin (1810-1849) ficou famoso como grande amante e patriota exemplar. No célebre filme À Noite Sonhamos, ele aparece vivendo um tórrido relacionamento amoroso com a escritora Aurore Dupin, que assinava com o pseudômino masculino de George Sand, e dando centenas de concertos para arrecadar fundos para sua Polônia natal. Na versão das telas, o compositor, tuberculoso, chega a manchar de vermelho o teclado do piano com suas hemoptises durante os recitais.
         “Como o título sugere, o livro é centrado nos dezoito anos que Chopin viveu em Paris. Ele chegou à cidade em 1831, com 21 anos e duas cartas de apresentação na algibeira, e ali morreu aos 39, de tuberculose. Grande parte do charme do livro está no retrato do meio artístico francês de então, povoado de figuras como o pintor Eugène Delacroix, o escritor Honoré de Balzac e compositores como Liszt e Berlioz.
“Uma parte significativa do livro é dedicada ao ‘casamento’ de nove anos entre Chopin e a escritora Aurore Dupin, a George Sand. Essa mulher de personalidade peculiar foi a única companheira duradoura de Chopin. Hollywood costuma mostrar compositores como seres iluminados, incompreendidos pelas ‘pessoas normais’. Amadeus, sobre Mozart, e Minha Amada Imortal, a respeito de Beethoven, são exemplos recentes dessa mitificação (ainda que o primeiro seja um ótimo filme). Livros como o de Tad Szulc têm o mérito de restituir a dimensão humana dessas personalidades.”

A visão de Allan Kardec — Entre as pessoas que viveram em Paris na época de Chopin e George Sand, seus biógrafos não mencionam o Professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, nome civil de Allan Kardec, que nasceu em Lyon em 1804, mudou-se mais ou menos em 1820 para Paris e ali viveu até falecer em 1869.
Homem culto, inteligente e perspicaz, ele acompanhava atentamente tudo que estava acontecendo em Paris e no mundo de sua época, na área da ciência, da filosofia, da religião ou das artes, incluindo aqui a literatura e a música, valendo consignar que nas sessões de estudos teóricos e práticos da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que fundou e dirigiu de 1858 a 1869, ele analisava muitos daqueles assuntos com o auxílio de numerosos colaboradores e com freqüência publicava matérias e comunicações de Espíritos de vários artistas na Revista Espírita.
Com efeito, não paira a menor dúvida de que Kardec conheceu a obra — e quem sabe pessoalmente — tanto de George Sand quanto de Chopin, valendo recordar que na edição de dezembro de 1866 daquela excelente revista, ele publicou um artigo intitulado Revista da imprensa relativa ao Espiritismo, do qual nos interessa o seguinte:
“Por mais que digam e façam, as idéias espíritas estão no ar; vêm à luz de qualquer maneira, sob a forma de romances ou de pensamentos filosóficos, e a imprensa as acolhe desde que não seja pronunciado o nome Espiritismo. Não poderíamos citar todos os pensamentos que ela registra diariamente, assim fazendo Espiritismo sem saber. Que importa o nome, se a coisa aí está? Um dia esses senhores ficarão muito admirados de haver feito Espiritismo, como o Sr. Jourdain ficou por ter falado em prosa. Muita gente costeava o Espiritismo sem o suspeitar; estão na ourela, quando se julgam bem longe. Com exceção dos materialistas puros, que certamente são minoria, pode dizer-se que as idéias da filosofia espírita correm o mundo; o que muitos ainda repelem são as manifestações mediúnicas, uns por sistema, outros porque, tendo observado mal, sofreram decepções; mas como as manifestações são fatos, mais cedo ou mais tarde terão que os aceitar. Eles se negam a ser Espíritas unicamente pela idéia falsa que ligam a esse nome. Que os que aí não chegam pela porta larga, aí cheguem pela lateral, o resultado é o mesmo; hoje o impulso está dado e o movimento não poderia ser detido.
“Por outro lado, como é anunciado, uma porção de fenômenos se produzem, que parecem afastar-se das leis comuns e atordoam a ciência, na qual em vão buscam a sua explicação; passá-los em silêncio, quando têm certa notoriedade, seria difícil. Ora, esses fenômenos, que se apresentam sob os mais variados aspectos, à força de se multiplicarem, acabam despertando a atenção e, pouco a pouco, familiarizam com a idéia de uma força espiritual, fora das forças materiais. É sempre um meio de chegar ao fim; os Espíritos batem de todos os lados e de mil maneiras diversas, de sorte que os golpes sempre alcançam uns ou outros.”
A partir deste ponto, Allan Kardec citou várias idéias espíritas que ele detectou no pensamento de diversos oradores e escritores, incluindo os seguintes da própria George Sand:
“O Siècle de 27 de agosto de 1866 citava as seguintes palavras da Sra. George Sand, a propósito da morte do Sr. Ferdinand Pajot:  
‘A morte do Sr. Ferdinand Pajot é um fato dos mais dolorosos e lamentáveis. Este jovem, dotado de notável beleza e pertencente a excelente família, era, além disso, um homem de coração e idéias generosas. Pudemos mesmo apreciá-lo, cada vez que invocamos a sua caridade para os pobres do nosso círculo. Dava largamente, mais largamente, talvez, do que o autorizaram os seus recursos, e dava com espontaneidade, com confiança, com alegria. Era sincero, independente, bom como um anjo. Casado há pouco com uma jovem encantadora, será lamentado como o merece. Depois desta cruel morte, devo lhe dar uma terna e maternal bênção: ilusão se se quiser, mas creio que entramos melhor na vida que se segue a esta quando aí chegamos escoltados pela estima e a afeição dos que acabamos de deixar.’
“A Sra. Sand é ainda mais explícita em seu livro Mademoiselle de la Quintinie. À página 318 lê-se: ‘Senhor padre, quando quiserdes que dêmos um passo para a vossa igreja, começai por nos fazer ver um concílio reunido e decretando mentira e blasfêmia o inferno das penas eternas, e tereis o direito de nos exclamar: ‘Vinde a nós, vós todos que quereis conhecer Deus.’
“À página 320: “Pedir a Deus extinguir os nossos sentidos, endurecer o nosso coração, tornar-nos odiosos os mais sagrados laços, pedir-lhe renegue e destrua a sua obra, voltar sobre os seus passos, fazendo-nos voltar nós mesmos, fazendo-nos retrogradar para as existências inferiores, abaixo do animal, abaixo da planta, talvez abaixo do mineral.’
“À página 323: ‘Entretanto, seja qual for a vossa sorte entre nós, vereis claro um dia além da tumba e, como não creio mais nos castigos sem fim, quanto nas provações sem fruto, anuncio-vos que nos encontraremos em qualquer parte onde nos entenderemos melhor e onde nos amaremos em vez de nos combatermos; mas, como vós, não creio na impunidade do mal e na eficácia do erro. Creio, pois, que expiareis o endurecimento do vosso coração por grandes dilacerações de coração em qualquer outra existência.”
No que concerne a Chopin, cumpre lembrar que o famoso músico desencarnou em Paris, no dia 17 de outubro de 1849, um ano depois do rompimento definitivo do seu relacionamento com George Sand. Pois bem, na edição de maio de 1859 da Revisa Espírita, com o título Música de além-túmulo, Allan Kardec publica interessante matéria relatando um episódio ocorrido na sessão de 8 de abril de 1859 da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, envolvendo os Espíritos que na Terra foram os compositores Mozart[1] e Chopin. Vejamos o que aconteceu então:
“O Espírito de Mozart acaba de ditar ao nosso excelente médium, Sr. Byron-Dorgeval, um fragmento de sonata. Como meio de controle, este último o fez ouvir por diversos artistas, sem lhes indicar a origem, mas lhes perguntando apenas o que achavam do trecho. Cada um nele reconheceu, sem hesitação, o cunho de Mozart. O trecho foi executado na sessão da Sociedade de 8 de abril último, em presença de numerosos conhecedores, pela senhorinha de Davans, aluna de Chopin e distinta pianista, que teve a gentileza de nos prestar o seu concurso. Como elemento de comparação, a senhorinha de Davans executou antes uma sonata que Mozart compusera quando vivo. Todos foram unânimes em reconhecer não só a perfeita identidade do gênero, mas ainda a superioridade da composição espírita. A seguir, com o seu talento habitual, a mesma pianista executou um trecho de Chopin.”
Através de um médium, Allan Kardec, após palestrar com Mozart, manteve o seguinte diálogo com Chopin, já no mundo dos Espíritos:

AK — Poderíeis dizer-nos em que situação estais como Espírito?
Chopin — Ainda errante.
AK — Lamentais a vida terrena?
Chopin — Eu não sou infeliz.
AK — Sou mais feliz do que antes?
Chopin — Sim, um pouco.
AK — Dizeis um pouco, o que quer dizer que não há grande diferença. Que é o que vos falta para o serdes mais?
Chopin — Eu digo um pouco em relação àquilo que eu poderia ter sido; porque com a minha inteligência eu poderia ter avançado mais do que avancei.
AK — Esperais alcançar um dia a felicidade que vos falta atualmente?
Chopin — Certamente que ela virá, mas serão necessárias novas provas.
AK — Mozart disse que sois sombrio e triste. Por que isto?
Chopin — Mozart disse a verdade. Entristeço-me porque tinha empreendido uma prova que não realizei bem e não tenho coragem de recomeçá-la.
AK — Como considerais as vossas obras musicais?
Chopin — Eu as prezo muito. Mas entre nós fazemo-las melhores; sobretudo as executamos melhor. Dispomos de mais recursos.
AK — Quem são, pois, os vossos executantes?
Chopin — Temos às nossas ordens legiões de executantes, que tocam as nossas composições com mil vezes mais arte do que qualquer de vós. São músicos completos. O instrumento de que se servem é a própria garganta, por assim dizer, e são auxiliados por uns instrumentos, espécies de órgãos, de uma precisão e de uma melodia que, parece, não podeis compreender.
AK — Sois muito errante?
Chopin — Sim. Isto é, não pertenço a nenhum planeta exclusivamente.
AK — E os vossos executantes? São, também, errantes?
Chopin — Errantes como eu.
AK (A Mozart) — Teríeis a bondade de explicar o que acaba de dizer Chopin? Não compreendemos essa execução por Espíritos errantes.
Mozart — Compreendo o vosso espanto. Entretanto, já vos dissemos que há mundos particularmente destinados aos seres errantes, mundos que eles podem habitar temporariamente, espécies de bivaques, de campos de repouso para esses Espíritos fatigados por uma longa erraticidade, estado que é sempre um pouco penoso.
AK (A Chopin) — Reconheceis aqui um de vossos alunos?
Chopin — Sim. Parece.
AK — Teríeis a bondade de assistir à execução de um trecho de vossa composição?
Chopin — Isto me daria muito prazer, sobretudo quando executado por uma pessoa que guardou de mim uma grata recordação. Que ela receba os meus agradecimentos.
AK — Quereis dar a vossa opinião sobre a música de Mozart?
Chopin — Gosto muito. Considero Mozart como meu mestre.
AK — Partilhais de sua opinião sobre a música de hoje?
Chopin — Mozart disse que a música era melhor compreendida em seu tempo do que hoje. Isto é verdade. Objetarei, entretanto, que ainda existem verdadeiros artistas.

                              — o —

Nota. A presente pesquisa foi realizada nas seguintes obras:
KARDEC, Allan. Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos. São Paulo, Edicel, s/d, Trad. Júlio Abreu Filho, maio de 1859 e dezembro de 1866.
Nova Enciclopédia Barsa, 1997, verbetes “Chopin”, “George Sand” e “Mozart”.
Revista Vejaedição 1.551, ano 31, nº 24, 17/jun/98, pág. 141.

(Coluna originalmente publicada na Revista Internacional do Espiritismo, Julho de 1998)



[1] Amadeus Wolfgang MOZART, um dos maiores compositores de todos os tempos, nasceu na Áustria em 27/01/1756 e ali mesmo faleceu no dia 05/12/1791 (Nota do autor).

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Quem criou o termo Arte Espírita?


Quem criou o termo Arte Espírita?
Arte pagã, arte cristã, arte espírita


Na sessão da Sociedade, de 23 de novembro, tendo-se manifestado espontaneamente o Espírito de Alfred de Musset (ver detalhe adiante, na sessão “Dissertações espíritas recebidas ou lidas na Sociedade por vários médiuns”), foi-lhe dirigida a seguinte pergunta:
─ A pintura, a escultura, a arquitetura e a poesia inspiraram-se sucessivamente nas ideias pagãs e nas cristãs. Podeis dizer-nos se depois da arte pagã e da arte cristã haverá algum dia uma arte espírita?
O Espírito respondeu:
─ Fazeis uma pergunta respondida por si mesma. O verme é verme; torna-se bicho da seda, depois borboleta. Que há de mais aéreo, de mais gracioso do que uma borboleta? Então! A arte pagã é o verme; a arte cristã é o casulo; a arte espírita será a borboleta.
Quanto mais se aprofunda o sentido desta graciosa comparação, mais se lhe admira a exatidão. À primeira vista poder-se-ia supor que o Espírito tivesse a intenção de rebaixar a arte cristã, colocando a arte espírita no coroamento do edifício, mas não há nada disto, e basta meditar nesta imagem poética para lhe captar a precisão. Com efeito, o Espiritismo apoia-se essencialmente no Cristianismo. Não vem substituí-lo. Completa-o e veste-o com roupagem brilhante. Nas fraldas do Cristianismo encontram-se os germes do Espiritismo. Se eles se repelissem mutuamente, um renegaria o seu filho, o outro, o seu pai. Comparando o primeiro ao casulo e o segundo à borboleta, o Espírito indica perfeitamente o laço de parentesco que os une. Há mais: a própria imagem pinta o caráter da arte que um inspirou e que o outro inspirará. A arte cristã teve que inspirar-se principalmente nas terríveis provações dos mártires e revestir a severidade de sua origem materna. A arte espírita, representada pela borboleta, inspirar-se-á nos vaporosos e esplêndidos quadros da existência futura desvelada. Ela plenificará de alegria a alma que a arte cristã havia penetrado de admiração e de temor. Será o canto de alegria após a batalha.
O Espiritismo encontra-se inteiramente na teogonia pagã, e a mitologia não passa de um quadro da vida espírita poetizada pela alegoria. Quem não reconheceria o mundo de Júpiter nos Campos Elíseos, com seus habitantes de corpos etéreos; os mundos inferiores no Tártaro; as almas errantes nos manes; os Espíritos protetores da família, nos lares e nos penates; no Lates, o esquecimento do passado, no momento da reencarnação; nas pitonisas, os nossos médiuns videntes e falantes; nos oráculos, as comunicações com o além-túmulo? A Arte necessariamente teve de inspirar-se nessa fonte tão fecunda para a imaginação, mas para elevar-se até o sublime do sentimento, faltava-lhe o sentimento por excelência: a caridade cristã.
Os homens só conheciam a vida material. A Arte procurou, antes de tudo, a perfeição da forma.
A beleza corporal era, então, a primeira de todas as qualidades. A Arte apegou-se a reproduzi-la, a idealizá-la, mas só ao Cristianismo estava destinado ressaltar a beleza da alma sobre a beleza da forma. Assim, a arte cristã, tomando a forma na arte pagã, adicionou-lhe a expressão de um sentimento novo, desconhecido dos Antigos.
Mas, como dissemos, a arte cristã teve que se ressentir da austeridade de sua origem e inspirar-se no sofrimento dos primeiros adeptos; as perseguições impeliram o homem ao isolamento e à reclusão, e a ideia do Inferno à vida ascética. Eis por que a pintura e a escultura são inspiradas, em três quartos dos casos, pelo quadro das torturas físicas e morais; a arquitetura se reveste de um caráter grandioso e sublime, mas sombrio; a música é grave e monótona como uma sentença de morte; a eloquência é mais dogmática do que tocante; a própria beatitude tem um cunho de tédio, de desocupação e de satisfação toda pessoal. Aliás, ela está tão longe de nós, colocada tão alto, que nos parece quase inacessível, e por isso nos toca tão pouco, quando a vemos reproduzida na tela ou no mármore.
O Espiritismo nos mostra o futuro sob uma luz mais ao nosso alcance; a felicidade está mais perto de nós, ao nosso lado, nos próprios seres que nos cercam e com os quais podemos entrar em comunicação; a morada dos eleitos não é mais isolada: há solidariedade incessante entre o Céu e a Terra; a beatitude já não é uma contemplação perpétua, que não passaria de eterna e inútil ociosidade: está numa constante atividade para o bem, sob o próprio olhar de Deus; não está na quietude de um contentamento pessoal, mas no amor recíproco de todas as criaturas chegadas à perfeição. O mau já não é degredado nas fornalhas ardentes, pois o Inferno se acha no próprio coração do culpado, que em si mesmo encontra o seu próprio castigo, mas Deus, em sua bondade infinita, deixando-lhe o caminho do arrependimento, deixa-lhe, ao mesmo tempo, a esperança, essa sublime consolação do infeliz.
Que fecundas fontes de inspiração para a Arte! Que obras primas essas ideias novas podem criar pela reprodução de cenas tão variadas e ao mesmo tempo tão suaves ou pungentes da vida espírita! Quantos assuntos ao mesmo tempo poéticos e palpitantes de interesse no incessante relacionamento dos mortais com os seres de além-túmulo; na presença, junto a nós, dos seres que nos são caros! Não será mais a representação de despojos frios e inanimados. Será a mãe tendo ao seu lado a filha querida, em sua forma etérea e radiosa de felicidade; um filho ouvindo atentamente os conselhos do pai que vela por ele; o ser pelo qual se ora, que vem testemunhar o seu reconhecimento. E, numa outra ordem de ideias, o Espírito do mal insuflando o veneno das paixões; o malvado fugindo do olhar de sua vítima que o perdoa; o isolamento do perverso em meio à multidão que o repele; a perturbação do Espírito, no momento de despertar, e sua surpresa à vista de seu corpo, do qual se admira de estar separado; o Espírito do defunto em meio aos seus ávidos herdeiros e amigos hipócritas; e tantos outros assuntos, tanto mais capazes de impressionar quanto mais de perto tocarem a vida real.
Quer o artista elevar-se acima da esfera terrestre? Encontrará temas não menos atraentes nesses mundos felizes que os Espíritos gostam de descrever, verdadeiros Édens de onde o mal foi banido, e nesses mundos ínfimos, verdadeiros infernos, onde todas as paixões reinam soberanamente.
Sim, repetimos, o Espiritismo abre para a Arte um campo novo, imenso e ainda não explorado, e quando o artista espírita trabalhar com convicção, como trabalharam os artistas cristãos, colherá nessa fonte as mais sublimes inspirações.
Quando dizemos que a arte espírita será um dia uma arte nova, queremos dizer que as ideias e as crenças espíritas darão às produções do gênio um cunho particular, como ocorreu com as ideias e crenças cristãs, e não que os assuntos cristãos caiam em descrédito; longe disto; mas, quando um campo está respigado, o ceifador vai colher alhures, e colherá abundantemente no campo do Espiritismo. Ele já o fez, sem dúvida, mas não de maneira tão especial quanto o fará mais tarde, quando for encorajado e excitado pelo assentimento geral; quando estas ideias estiverem popularizadas, o que não pode tardar, pois os cegos da geração atual diariamente desaparecem da cena, por força das coisas, e a geração nova terá menos preconceitos. A pintura mais de uma vez inspirou-se em ideias deste gênero. A poesia, sobretudo, está cheia delas, mas estão isoladas, perdidas na multidão. Tempo virá em que elas farão surgir obras magistrais, e a arte espírita terá seus Rafael e seus Michelângelo, como a arte pagã teve os seus Apeles e os seus Fídias.

fonte: Revista Espírita 1860

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Charles Chaplin e e Espiritismo


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Charles Chaplin e o Espiritismo

Sabemos todos nós, que frequentemente estudamos as obras basilares da Codificação, que temos em Emmanuel, André Luiz, Joanna de Ângelis, Manoel Philomeno de Miranda e outros autores de bom crédito, um importante suporte para que entendamos um pouco mais da fenomenologia, da ciência, da filosofia e da parte moral da Doutrina Espírita.

Então, não precisamos enfatizar e dar as razões por que o “acaso não existe”.

Era o ano de 2011. Em plena atividade nos dias de realização do 3º Congresso Britânico de Medicina e Espiritualidade, que se realizava em Londres, no Rich Mix, perto de Liverpool Street Station, um fato curioso se passou. 

Antes disso, devo relatar que recebi meses antes um e-mail de Oceano Vieira de Melo informando que a Versátil Home Vídeo iria realizar um trabalho, juntamente com um grande jornal de São Paulo, resgatando os filmes de Charles Chaplin. Isso antes do Congresso. Era um projeto interno da Versátil Home Vídeo.

Bem... Chegou o mês de novembro de 2011. Primeiro dia do Congresso Britânico, hall cheio de participantes. Na sala de apoio estavam os 9 palestrantes, médicos britânicos e brasileiros, alguns dando o toque final nos seus slides, outros revisando o material em inglês com Silvia Gibbons, outros trocando ideias. Nessa sala, a mesa posta com café, chás e quitutes, organizada pela equipe da BUSS, era coordenada por Elizabeth Stevenson, a batuta da orquestra de fraternidade reinante no ambiente. Um ou outro, de olhos fechados, em prece. Assim, o ambiente propiciava o que viria acontecer em seguida.

Os médicos da AME Internacional formam uma família muito linda e unida. Em dado momento, Dra. Marlene Nobre para, e tem os olhos voltados para uma direção. Via-se em seu rosto uma expressão de indagação, misturada com um sorriso silencioso. Aguardamos que voltasse o rosto para nós. Ela então relata, imersa em alegria: sua visão psíquica captara a presença alegre de Charles Chaplin.

Ela ficou surpresa por vê-lo em um evento da ciência espírita. Ficamos todos felizes pela presença e endereçamos a ele uma prece com nossa gratidão por ter vindo nos prestigiar.

Prosseguiu a programação, tudo transcorreu em clima de aprendizado, nesta ciência universal que é a ciência espírita.

Passados 3 anos, estávamos em plena atividade num Seminário de Preparação de dirigentes e trabalhadores das reuniões mediúnicas espíritas do Reino Unido, como vem acontecendo todos os anos pela AME Internacional, tendo à frente a Dra. Marlene Nobre. Era outubro.

Pretendemos realizar esse evento sempre que possível, pois uma das metas da BUSS é priorizar a formação e a reciclagem do trabalhador espírita para melhorar a qualidade de serviço, como sempre incentivou nosso Nestor Masotti.

Ao final da primeira parte do Seminário, Dra. Marlene relatou a alguns dos dirigentes de grupos próximos dela algo que nos deixou a todos felizes. Disse-nos que, pouco depois de iniciar-se o Seminário, às 7 horas da noite de 22 de outubro, adentrou o recinto Charles Chaplin, fazendo suas piruetas e brincando, e isso lhe chamou a atenção psíquica. Em seguida, atrás de Charles Chaplin, seguindo-o, adentraram centenas de Espíritos que desencarnaram em situação de pobreza espiritual, pela bebida, drogas etc., e seus estados eram calamitosos. Chaplin, com sua alegria, conseguiu atraí-los ao ambiente luminoso de paz e saúde espiritual e, em seguida, os tarefeiros espirituais compromissados com a caridade os enlaçavam em luzes, resgatando grande quantidade de Espíritos em iguais condições, a fim de serem levados para receber tratamento e o de que necessitavam.

Disse-nos Dra. Marlene: “Esses Espíritos, dada a vibração deles, não conseguiriam ser atraídos pelos Mentores, apesar de receberem o auxílio para o despertamento. Com a ajuda amorosa de Chaplin, puderam ser atraídos pelas piruetas, brincadeiras e, estando uma vez no recinto, puderam receber o auxílio e serem resgatados”.

Agora sim, Dra. Marlene mais claramente pôde nos explicar a ligação da arte com a ciência e como em muitos casos podem trabalhar juntas, uma ajudando à outra. Confesso que fiquei tão feliz e me lembrei dos momentos da conversa com Oceano, sem que ninguém soubesse do projeto comercial da DVD Versátil, que apenas estava se iniciando, e do qual eu mesma me havia esquecido com o passar do tempo. Mas agora faço toda uma ligação, pois nada é por acaso.

Gratos somos a esse britânico que na sua última encarnação recebeu o nome de Charles Spencer Chaplin, mais conhecido como Charlie Chaplin, nascido em Londres em 16 de abril de 1889 e vindo a desencarnar em 25 de dezembro de 1977, depois de ser condecorado, ainda em vida, como Cavalheiro do Império Britânico, entre outras muitas condecorações aqui e na França.

Para dar mais brilho a esta crônica , em homenagem ao nosso Charles, copiei aqui o que nos diz a Wikipedia:
 
Em 2008, em uma resenha do livro Chaplin, A Life, Martin Sieff escreve: Chaplin não foi apenas 'grande', ele foi gigantesco. Em 1915, ele estourou um mundo dilacerado pela guerra trazendo o dom da comédia, risos e alívio enquanto ele próprio estava se dividindo ao meio pela Primeira Guerra Mundial. Durante os próximos 25 anos, através da Grande Depressão e da ascensão de Hitler, ele permaneceu no emprego. Ele foi maior do que qualquer um. É duvidoso que algum outro indivíduo tenha dado mais entretenimento, prazer e alívio para tantos seres humanos quando eles mais precisavam." (Grifo meu)

Creio que com essas informações do livro A Life, podemos entender por que ele continua trabalhando junto aos caídos de condições espirituais ainda em pesarosa situação. Parte de sua atuação e sua fala no filme O Grande Ditador(legendado) podem ser vistas na internet, clicando no seguinte link:
https://www.youtube.com/watch?v=3OmQDzIi3v0.

E assim, somando às nossas boas iniciativas, vamos abrindo espaços para eventos de luz que ajudem e que, também, usando o mesmo espaço, possamos nós, encarnados e desencarnados, trabalhar de mãos dadas, como irmãos de todas as terras aqui e além-mar, nos dois planos da vida.

ELSA ROSSI, escritora e palestrante espírita brasileira radicada em Londres, é membro da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional (CEI).

fonte: http://www.oconsolador.com.br/ano8/397/elsa_rossi.html