sexta-feira, 24 de maio de 2019

Crítica do filme Kardec



Crítica ao filme Kardec

Por Cleiton Freitas
cleiton.cesom@gmail.com
 Análise de um roteiro
24/05/19




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Uma vida não cabe em 2h.

     Fazer filmes biográficos não é fácil, pois é contar a vida de alguém, dias, meses, anos em poucos minutos, e com o filme do diretor Wagner de Assis, não é diferente, Resumir em 110min a vida de alguém com tantos fatos importantes.
Escolher o que contar é sempre uma tarefa difícil do roteirista e do diretor, eles escolhem que recortes irão ser apresentados da vida do biografado, quais foram os fatos mais marcantes e quais dão uma boa cena, e no filme a narrativa criada envolve os principais pontos que o professor Rivail (Leonardo Medeiros) teve em sua busca de consolidar o Espiritismo.
    
    O filme segue uma linha narrativa linear, passando pelos principais pontos da vida do professor francês e tem seus pontos de virada bem definidos, (ponto de virada: quando a história muda). Toda a história toma um rumo diferente quando o professor vai a uma sessão de mesas girantes na casa da Madame Planemaison, a partir daquele fato sua vida vai mudar, muito cético, mas fisgado pela curiosidade, ele procura descobrir o que seria aquele fenômeno que o envolve emocional e racionalmente em algo que é um mistério na França, como as mesas giram? Seria charlatanismo? A partir deste ponto o público é convidado a adentrar na pesquisa que o professor faz para desvendar o que acontece.
    
    Somos apresentados à curva dramática do personagem (mudanças que um personagem sofre no decorrer de uma história) E, normalmente, em histórias bem contadas os personagens passam sempre por transformações no modo de pensar, de agir, e com professor Rivail, isso é bem feito, de um cientista cético ele vai no decorrer da narrativa se transformando no codificador do Espiritismo, essa mudança em sua vida proporciona a ele muitos aprendizados, dificuldades, horas de desânimo, mas ele tem uma ajuda muito grande de uma personagem coadjuvante (personagens importantes na narrativa que impulsionam e dão força para o personagem principal alcançar seus objetivos) é Gabi, sua esposa, (Sandra Corveloni) esta personagem forte e que dá leveza e poesia na história, ela auxilia o professor nas horas mais difíceis em que ele até pensa em desistir. Uma cena bem trabalhada da interação entre os dois atores é a do jantar silencioso.

    O filme não é só a história de um homem que abandonou o seu nome prestigiado de professor, cientista e reconhecido pela Academia Francesa, para assumir um pseudônimo, mas vários assuntos que vão aparecendo na trama, algumas questões que sugerem muito a reflexão e o debate: a intolerância, o preconceito, a miséria, liberdade de expressão, suicídio, a dualidade entre todo o poder da grande Igreja Católica com seus dogmas e de outro Kardec com poucas pessoas fisicamente ao seu lado, mas toda uma espiritualidade ávida para abalar o velho mundo com as notícias dos “mortos”.

     O filme tem uma fotografia muito bonita (Nonato Estrela), com figurinos que correspondem à época, uma estética de Paris bem produzida, uma cenografia retratada com ambientes fechados, apertados, que clamam com algo para serem revelados, com muitas técnicas de computação e usando a cor e luz como narrativas, por ser ambientado todo a luz de velas isso dá um tom de cor interessante na pele dos personagens e nas cenas, permitindo a fotografia brincar com as sombras e luz, vemos isso em cenas em que os livros lançados por Kardec estão bem iluminados contrastando com os ambientes a meia luz, percebemos também que os representantes da Igreja estão sempre um pouco mais escuros, a luz estaria definindo um antagonismo (antagonista: aquele que rivaliza com o protagonista) isso cria uma metáfora de que os livros trariam luzes à humanidade, tirando o velho mundo das trevas, vemos também estas sombras no filme quando ele mostra muitas pessoas morando nas ruas, uma França que mesmo sendo berço do século das luzes, ainda vivia com uma grande população na miséria. Situação que é bem colocada no roteiro com o professor Rivail falando sobre a solidariedade.

    É um filme para qualquer pessoa assistir, longe de religião, o filme mostra um professor e cientista buscando respostas através de métodos, de experimentação e pesquisas, que tem uma história muito inspiradora em um filme cheio de mensagens e aprendizados. E algo que está nas entrelinhas do filme é que tem muito mais assunto ali que não foi visto, lacunas, palavras não ditas, que só uma pesquisa sobre a vida do professor e de suas obras pode responder. O homem por trás do nome.

Vale a pena assistir!